Durante muito tempo me perguntei o porque de o Brasil nunca receber uma etapa do Grand Prix, mesmo tendo vencido tanto nos últimos anos. A seleção brasileira foi uma das protagonistas em praticamente todos os campeonatos organizados pela Federação Internacional nos últimos 15 anos e nem assim tinha o privilégio de organizar um joguinho sequer. A resposta para tal pergunta, na verdade, nunca encontrei. E nunca vou encontrar, a menos que alguém resolva dizer a verdade. Mas teorias não me faltaram.
Será que os jogos nunca aconteciam aqui porque ficamos longe da Europa? Mas até aí a Ásia também fica e todo ano eles tem overdose de voleibol feminino. A distância não é, então, o fator determinante. Seria esse o dinheiro? Acho que foi a resposta mais aceitável que cogitei. O Japão, que ano sim outro também, tem várias etapas do Grand Prix, Campeonato Mundial, Copa do Mundo.. e qualquer outro campeonato relevante, tem o dinheiro que a FIVB procura. Tem mais. Além de patrocinadores, tem estrutura para receber os campeonatos, ginásios de primeiro mundo, transporte para deslocar as seleções com conforto e velocidade. Essa, acho que é uma explicação razoável para a fartura de vôlei no oriente. Mas o enredo é assim no Japão. Será que todos os países que receberam etapas do Grand Prix tem tudo isso? Ou indo além, será que o Brasil deixa a desejar para todos esses países? Acho que não, mas como não conheço prefiro não entrar em detalhes. E mais, acho que já está na hora do Brasil se comparar aos melhores e não se contentar em ser melhor que Vietnã, Tailândia, Filipinas. Nada contra esses países, mas pensando na situação econômica do nosso país e até mesmo no nível que o voleibol atingiu por aqui podemos, e devemos, exigir mais.
Nos últimos dois anos tivemos a chance de receber etapas do Grand Prix, um dos campeonatos mais importantes no calendário do vôlei feminino. Tive a oportunidade de ir aos dois e saio com a certeza de que a CBV não sabe, ou ao menos não faz a menor questão, de fazer do campeonato um evento. Parece que eles não entendem que tem gente no país inteiro esperando por esses momentos, que precisam se programar para ver os jogos.
Depois de muito tempo, uma nova oportunidade e a cidade escolhida para receber as seleções de Porto Rico, Estados Unidos e Alemanha foi o Rio de Janeiro. Parecia uma escolha natural, já que depois de todo dinheiro gasto para os Jogos Pan-americanos, se tem algo que foi bem feito foi o Maracanazinho. O ginásio, claramente, tem totais condições de receber qualquer jogo e a cidade também, ainda que não com a qualidade japonesa, tem transporte até o ginásio, tem hotéis em todos os cantos. Mas isso não basta. No ano passado vi muitas pessoas que vieram de fora, muitas vezes de avião, e que reclamavam não terem podido comprar os ingressos com antecedência e assim fazer uma programação mais precisa levando até à uma economia nos gastos com a viagem. Não bastasse a demora na venda, o que se via no ginásio nem de perto lembrava um país de pessoas civilizadas. Parecia que o lugar marcado valia apenas para o jogo do Brasil. Será que alguém achou que aquele lugar que estava escrito no ingresso, que você mesmo escolheu valia apenas para um dos jogos? Certo que essa falta de educação não é culpa da CBV e sim de cada torcedor que estava ali dentro, mas era responsabilidade dela, enquanto organizadora do evento, manter a ordem em respeito àqueles que mesmo podendo “tirar uma vantagem” não o fizeram em nome da educação e da civilidade. E não digam que essa pessoa não existe, porque eu vi. E não foi uma só. Pode parecer bobagem, afinal se o lugar está vazio que mal tem? O mal é que na maioria das vezes as pessoas mudavam de lugar tendo acesso a cadeiras pelas quais não pagaram. E o pior era quando quem ‘invadia’ as cadeiras alheias eram os voluntários. Sim, aqueles que se dispuseram a ajudar, por isso são VOLUNTÁRIOS, acabado o jogo do Brasil, esqueciam que estavam ali para auxiliar e se sentavam nas cadeiras mais caras do ginásio. Posso estar sendo ranzinza em reclamar disso? Talvez, até porque acho nada seria capaz de estragar a festa e alegria de, finalmente, ver o Grand Prix em solo brasileiro. O fim de semana acabou e as boas lembranças com certeza são muito maiores. Mas o mínimo que eu esperava era que se aprendesse com o que passou. Mas parece que não.
Pouco depois do fim do Grand Prix do ano passado, o Brasil foi novamente confirmado como uma das sedes para o campeonato esse ano. Começaram, então, as especulações sobre qual cidade receberia os jogos e também a torcida para que viessem boas seleções.
Parece que as orações foram ouvidas e Itália, Japão e Coréia seriam os adversários do Brasil na etapa a ser disputada em São Paulo, imaginava-se no ginásio do Ibirapuera. Pouco à pouco as coisas foram mudando. A Coréia não viria mais, em seu lugar enfrentaríamos Taipei e os jogos seriam não mais na capital, mas sim em São Carlos. Em São Carlos?? Deve ter sido a reação da maioria. Sim, em São Carlos. Mais uma vez, nada contra a cidade, que pelo contrário, eu adorei. Uma população das mais simpáticas que eu já conheci e que nada tem a ver com as reclamações que faria à organização da Confederação Brasileira, mas não me parece que seria a primeira cidade que todos pensariam como opção para receber um campeonato desse porte depois de Rio e São Paulo. A menos que tivesse uma estrutura para isso, um ginásio espetacular ou que fosse uma cidade pólo no voleibol. Não, nenhum desses era o caso. Foi lá por questões políticas ou quem sabe pessoais.
Embora vivamos em um país continental, com 27 cidades, que a princípio, teriam mais condições de receber um evento de grande porte do que ‘pequenas’ cidades do interior, acho válida a tentativa de levar vôlei para um público diferente. Mas isso desde que se exija da prefeitura ou do responsável por levar o evento para a cidade as condições mínimas para realizá-lo. Isso não aconteceu em São Carlos.
Os erros do ano passado se repetiram. Mais uma vez os ingressos demoraram a serem vendidos e começaram apenas pela Internet e em lojas das grandes capitais. Em São Carlos que é bom, nada. O que mostra que nem a CBV esperava que o público fosse majoritariamente local. Logo, se você faz um evento sabendo que as pessoas terão que viajar, terão que se hospedar em algum lugar, não dá para fazer com certa antecedência? Tem muita gente que não queria comprar passagem, pagar o hotel sem nem mesmo saber quanto teria que pagar nos ingressos ou mesmo se conseguiria comprá-los. Bem, esse foi o primeiro problema.
Começa a venda e mais uma surpresa. Mapa de assentos disponíveis e os consumidores tem duas opções: cadeiras ou arquibancada. Sem esquecer, é claro, que metade do ginásio encontrava-se indisponível, pois estava reservado para o Banco do Brasil, como de costume. Sim, estava ali, claramente desenhado, que a parte do ginásio de frente para a transmissão da TV não estava sendo vendida, sendo assim, cabia a nós, consumidores ‘normais’, chegar ao ginásio e escolher um dos assentos nas laterais ou atrás dos bancos. Nenhum problema, estavam todos cientes, ao analisar o mapa de assentos, que não poderiam sentar em qualquer lugar, já que parte do espaço estava reservado ao banco patrocinador.
Cheguei na cidade na terça-feira e conheci pessoas envolvidas em diversos setores da organização. Do dono da academia onde as jogadoras treinaram ao segurança do ginásio, todos muito solícitos.
Na quarta-feira ainda estavam recrutando voluntários, não sei se é normal que isso aconteça dois dias antes do evento começar, mas qualquer coisa damos um jeitinho, não é?
Foi o primeiro dia em que fui ao ginásio e devo confessar que a minha impressão não foi muito boa. Um lugar escuro, frio e com aspecto meio sujo (talvez até pela falta de iluminação). Estava difícil acreditar que o local passou por reforma recentemente. Enfim, foi apenas o primeiro dia.
Infelizmente a impressão não mudou ao longo da semana. Os preparativos continuavam em andamento e finalmente chegamos à sexta-feira. Dia que, tenho certeza, muitos esperaram durante meses. Portões programados para abrir às 7:20 da manhã, duas horas antes do evento começar, como previsto no ingresso. Mas era óbvio que isso não aconteceria. O público na fila congelava, juro que nunca senti tanto frio antes. O bom senso diria para agilizarem tudo para que os portões pudessem ser abertos o mais rápido possível para os torcedores poderem entrar no ginásio, escolherem seus lugares e se protegerem do frio, enquanto esperavam a festa começar.
Nada disso aconteceu. Não sei se faltou alguém com bom senso, alguém que soubesse qual decisão tomar ou se eles já sabiam que a vida do torcedor não seria tão agradável assim dentro do ginásio. Não digo isso porque não sabiam como fazer a leitura do ingresso, porque na verdade estava apenas começando e eles ainda não estavam treinados. Desagradável foi entrar no ginásio e perceber que o frio não passou. Foi ver a Mari correndo pra se aquecer mostrando para as companheiras que se elas dessem uma baforada saía fumaçinha, como nas ruas no inverno italiano. Foi ver a Dani Lins pedindo uma luva para proteger as mãos. Foi a vergonha de trazer o Japão ao Brasil e fazê-las ficarem agasalhadas com cobertores no banco. Ei, estamos no Brasil! Com certeza o frio no ginásio era ruim para o público e péssimo para as jogadoras. Mas o desrespeito com o torcedor foi muito além. Lembra da divisão de assentos? Metade para o Banco do Brasil, metade para os mortais? Parece que a organização esqueceu. Ao entrar no ginásio descobrimos que o mapa de assentos que usaram para nos vender os ingressos não valia mais. A organização tinha mudado de idéia. Eu, que antes só poderia sentar nas laterais e atrás dos bancos de reserva, agora era obrigada a me sentar no meio vestida de ‘Banco do Brasil’.
- Mas e se eu quiser sentar no lugar que acreditava ser meu por direito quando fiz a compra e programei minha viagem?
- Sinto muito, mas para sua segurança apenas essas cadeiras estão liberadas. O restante só quando eu decidir.
- Para minha segurança você está me dizendo que não posso entrar no ginásio com antecedência e escolher o meu lugar entre aqueles que você, organizador do evento, me disse que estaria disponível?
- Não, seu ingresso não tem lugar marcado.
- Exatamente, está escrito cadeira, logo ele me dá direito a sentar em qualquer lugar que você vendeu como cadeira, assim como para quem comprou na arquibancada e não quer sentar no teto do ginásio estando todo o resto do anel vazio.
- É para sua segurança.
A sim, liberar as grades e todo mundo sair correndo é muito seguro!
Para meu espanto a situação se repetiu nos três dias. Ou você brigava, chamava um responsável de verdade ou era obrigado a esperar a decisão dos seguranças em liberar o espaço pelo qual você pagou. Para não falar na área VIP que eles inventaram em parte das cadeiras.
Toda essa situação me faz refletir sobre o que eles acham dos torcedores. Será que nenhum esporte no Brasil vai conseguir enxergar seu público como consumidor? Será que nunca vamos entender que tratar bem público também faz parte do sucesso do evento? Não adianta ter uma quadra boa, bons vestiários (que não sei nem se era o caso), se quem saiu de casa cedo para se divertir não tem um bom lugar para sentar e pior não tem nem onde comer. Não sei como era na parte das arquibancadas, mas nas cadeiras não havia nenhuma opção para alimentação. Nenhum bar ou lanchonete sequer. Beber água para que? Um jogo às 9:30 da manhã, outro uma da tarde, não dá nem tempo de sentir fome. Você poderia sair e tentar se virar nas opções improvisadas que tinham no descampado em frente ao ginásio, mas para voltar só na hora que eles quisessem. E nem tente entrar com alguma bebida.
Parece que a CBV estava fazendo de tudo para o evento ser uma experiência traumática para todos que foram até o Milton Olaio Filho. Se era esse o objetivo, acho que eles não conseguiram. Porque, mesmo mal tratado, o público se comportou de maneira exemplar. Respeitou as quatro seleções, brincou, se divertiu. Os times também foram muito simpáticos, pudemos ver bons jogos, grandes jogadoras em ação. E, assim como aconteceu no ano passado, a festa valeu à pena. As boas lembranças serão muito maiores. Mas não é por isso que não devemos reclamar.

O Brasil merece o direito de receber esses grandes eventos, mas tem também obrigações quando assume a responsabilidade de fazê-los. Não podemos contar apenas com o espírito alegre do brasileiro para as coisas acontecerem. O público deve, no mínimo, ser tratado com respeito. Dizem que o cliente tem sempre razão, mas isso não parece valer para a Confederação Brasileira de Voleibol.
fotos: fivb.com
